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Torto Arado: um retrato visceral do Brasil rural que ecoa para além da ficção

  • Foto do escritor: Jaque Corrêa
    Jaque Corrêa
  • há 14 minutos
  • 2 min de leitura

Uma narrativa sobre ancestralidade, dor e permanências do Brasil escravista

Torto Arado, Itamar Vieira Jr

Em uma história marcada por vida e morte, combate e redenção, Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, dá voz aos despossuídos e aos historicamente silenciados no Brasil. A partir da relação profunda e atravessada pela dor entre as irmãs Bibiana e Belonísia, o autor constrói um romance que vai além do drama familiar e se firma como um retrato das desigualdades sociais que persistem no país.


Lançado em 2018 e publicado no Brasil pela editora Todavia, o livro foi vencedor de prêmios da literatura nacional e internacional, como o Jabuti e o LeYa, consolidando-se assim como uma das obras mais relevantes da ficção brasileira contemporânea. Ambientada no sertão da Bahia, a narrativa se passa décadas após a abolição da escravidão, mas deixa claro como seus efeitos continuam presentes na vida de comunidades negras que vivem à margem do acesso aos direitos básicos.


A trama acompanha Bibiana e Belonísia desde a infância, quando um acidente transforma definitivamente a relação entre as duas irmãs, fazendo com que uma passe a depender da outra de maneira irreversível. A partir disso, o leitor é conduzido por um universo marcado por crenças, tradições, e tragédias, elementos que revelam um Brasil rural ainda submetido a relações de exploração que se aproximam do trabalho análogo à escravidão.


Embora a relação entre as irmãs seja o eixo central do romance, Torto Arado se destaca pela construção cuidadosa de todos os seus personagens. Cada figura que atravessa o enredo carrega sua própria profundidade e relevância narrativa. Nenhuma história paralela parece gratuita: todas contribuem para imergir o leitor e têm sua devida importância para dar continuidade na história.


Outro ponto marcante da obra é a linguagem de Itamar Vieira Junior. A escrita é poética, rebuscada, e permeada por expressões regionais e gírias que, à primeira vista, podem causar estranhamento ou comprometer a fluidez da leitura. No entanto, à medida que a narrativa avança, essa escolha se mostra fundamental para a experiência do livro.


No final da leitura, fica claro que Torto Arado não é apenas um romance sobre laços familiares, mas uma obra que provoca reflexão sobre o passado e o presente do Brasil. Ao lembrar que mais de 130 anos após a abolição da escravidão ainda existem realidades tão próximas das retratadas na ficção.

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