'A Hipótese do Amor': vale a pena ler o fenômeno de Ali Hazelwood agora que o filme chegou ao Prime Video?

Com Lili Reinhart e Tom Bateman nos papéis de Olive e Adam, adaptação reacende o interesse pelo romance que transformou Ali Hazelwood em um dos grandes nomes do gênero. Mas, cinco anos após sua publicação, o livro ainda merece todo o hype?

Quem acompanha romances contemporâneos provavelmente já esbarrou em algum momento com A Hipótese do Amor. Publicado originalmente em 2021, o livro de estreia de Ali Hazelwood se tornou um fenômeno entre leitores, ajudou a popularizar ainda mais o chamado romance acadêmico e apresentou ao mundo uma combinação que depois se tornaria praticamente uma marca registrada da autora: mulheres na ciência, homens aparentemente intimidadores, muito constrangimento e, é claro, romance. Agora, a história ganha uma nova vida.
A Hipótese do Amor chegou ao Prime Video no dia 23 de setembro, com Lili Reinhart no papel de Olive Smith e Tom Bateman como Adam Carlsen. Dirigido por Claire Scanlon, o longa tem 1h52 de duração e adapta para as telas o relacionamento falso que conquistou leitores pelo mundo.
É também um bom momento para voltar ao livro.
Li A Hipótese do Amor em 2024 e, mesmo dois anos depois, alguns elementos da história continuam muito fáceis de lembrar. Não necessariamente porque Ali Hazelwood reinventa o romance, mas porque entende muito bem como trabalhar suas fórmulas.
E talvez seja exatamente aí que esteja a resposta para o sucesso do livro.
Um beijo, uma mentira e uma hipótese que sai do controle

Olive Smith é doutoranda em biologia e está completamente focada em sua carreira acadêmica. Ou pelo menos deveria estar.
Para convencer sua melhor amiga, Anh, de que não tem mais interesse no homem por quem ela está apaixonada, Olive toma uma decisão bastante questionável: beija o primeiro cara que aparece na sua frente.
O problema é que esse cara é Adam Carlsen.
Professor de Stanford, cientista brilhante e conhecido principalmente por aterrorizar boa parte dos alunos que cruzam seu caminho, Adam definitivamente não parece o candidato mais óbvio para participar daquela encenação.
Mesmo assim, o beijo acaba dando origem a um acordo: Olive e Adam passam a fingir que estão em um relacionamento.
É a clássica fórmula do fake dating, o namoro de mentira que claramente tem grandes chances de deixar de ser tão falso assim.
Não existe um grande mistério sobre para onde a história está caminhando. E o livro nunca parece interessado em esconder isso. A graça está no caminho.
Hazelwood transforma encontros semanais para tomar café, situações cada vez mais constrangedoras, conversas aparentemente banais e uma sequência de coincidências dignas de comédia romântica em combustível para construir a relação entre os protagonistas.
Adam começa como aquele personagem praticamente inacessível: enorme, sério, mal-humorado e temido no ambiente acadêmico. Aos poucos, entretanto, Olive (e nós enquanto leitores) encontramos alguém muito diferente por trás dessa reputação. E é justamente a química entre os dois que sustenta boa parte do livro.
Ciência não está ali apenas como decoração
Existe outro fator importante para entender por que A Hipótese do Amor chamou tanta atenção. Ali Hazelwood conhece o ambiente sobre o qual escreve.
A autora nasceu na Itália, viveu na Alemanha e no Japão e se mudou para os Estados Unidos para fazer um Ph.D. em neurociência. Ela também trabalhou como professora antes de abandonar a carreira acadêmica, em 2022, para se dedicar integralmente à literatura.
E no livro, isso é evidente: laboratórios, bolsas de pesquisa, orientadores, artigos científicos, conferências, financiamento e a enorme pressão sofrida por quem está tentando construir uma carreira acadêmica fazem parte do cotidiano de Olive.
Obviamente, tudo isso é apresentado dentro de uma comédia romântica. A Hipótese do Amor não pretende ser um retrato documental da pós-graduação.
Ainda assim, é interessante acompanhar uma protagonista cuja vida não gira apenas em torno de encontrar alguém.

Olive quer ser cientista. Sua pesquisa é importante para ela. Suas inseguranças profissionais importam. A possibilidade de continuar seu trabalho importa. E algumas das situações mais tensas do livro surgem justamente quando os mundos profissional e pessoal começam a se misturar.
Isso também ajuda Olive a fugir, pelo menos parcialmente, daquela protagonista de romance cuja única função narrativa parece ser se apaixonar.
Ela pode ser extremamente atrapalhada emocionalmente, mas é competente, ambiciosa, inteligente e apaixonada pelo que faz.
A Olive talvez seja mais interessante justamente porque não tem tudo resolvido
Esse foi um dos aspectos que mais me chamou atenção quando li o livro em 2024.
Olive é inteligente, mas isso não significa que seja emocionalmente segura. Na verdade, é quase o contrário.
Ela tenta racionalizar sentimentos, cria situações absurdas para evitar conversas difíceis e frequentemente parece muito mais confortável diante de um problema científico do que diante da possibilidade de se mostrar vulnerável para outra pessoa. E há algo bastante humano nisso.
A Hipótese do Amor funciona bem quando coloca uma mulher extremamente competente em sua vida profissional diante de questões para as quais não existe experimento ou artigo científico capaz de entregar uma resposta pronta.
Apaixonar-se significa abrir mão de certo controle. E Olive não é particularmente boa nisso. Por trás das piadas e do romance, existe uma personagem com medo de perder pessoas, de interpretar sentimentos de forma errada e, principalmente, de acreditar que alguém possa realmente escolhê-la.
É justamente essa vulnerabilidade que impede que ela se torne apenas a “cientista inteligente” que o estereótipo poderia sugerir.
Sexualidade feminina e desejo
Outro aspecto que ficou comigo desde minha primeira leitura foi a maneira como o livro trata a sexualidade de Olive.
É importante fazer uma distinção: A Hipótese do Amor continua sendo, acima de tudo, uma comédia romântica. Não estamos diante de uma obra cuja principal intenção seja realizar uma grande discussão teórica sobre sexualidade feminina. Mas isso não significa que o assunto passe despercebido.
Quando Olive começa a compreender seu desejo por Adam, Hazelwood permite que a personagem tenha inseguranças, dúvidas, vontades e limites sem transformá-los em motivo de vergonha.

A intimidade entre os protagonistas também passa pela comunicação. Em momentos importantes da relação, aquilo que Olive quer (ou deixa de querer) importa.
Consentimento não aparece como uma palavra inserida artificialmente para transmitir uma mensagem ao leitor, mas dentro da própria dinâmica entre os personagens.
Para mim, isso contribui para uma das qualidades do livro: permitir que sua protagonista seja simultaneamente inteligente, vulnerável e profissionalmente ambiciosa. Uma característica não precisa anular a outra.
E, em um gênero que durante muito tempo trabalhou com diferentes expectativas sobre como mulheres deveriam se comportar romanticamente ou sexualmente, essa naturalidade faz diferença.
Então, por que fez tanto sucesso?
Talvez porque Ali Hazelwood tenha encontrado uma combinação extremamente eficiente.
Pegue o fake dating.
Adicione um slow burn.
Coloque uma protagonista carismática que consegue analisar dados científicos melhor do que os próprios sentimentos.
Acrescente um homem que todo mundo considera assustador, mas que se mostra completamente amorzinho quando está com ela.
Jogue tudo isso dentro de laboratórios, conferências acadêmicas e cafeterias.
E permita que os personagens sejam engraçados.
O resultado é um livro extremamente fácil de consumir.
A Hipótese do Amor não precisa reinventar o gênero para funcionar. Ele entende aquilo que seus leitores estão procurando e executa essa proposta com personalidade suficiente para ser lembrado anos depois.
Talvez a melhor evidência disso seja justamente estarmos falando sobre Olive e Adam novamente em 2026.
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