Além da (suposta) traição: ‘Dom Casmurro’ revela o poder de quem conta a história
- Bianca Fávero

- há 2 dias
- 3 min de leitura

À primeira vista, é difícil pensar em Dom Casmurro, um dos romances mais emblemáticos de Machado de Assis, sem que a pergunta “Capitu traiu Bentinho?” venha à mente. Desde que a pesquisadora americana Helen Caldwell contestou pela primeira vez a infidelidade, essa discussão dominou grande parte da interpretação da obra. Porém, uma leitura mais atenta mostra que o autor não está preocupado em responder ao mistério amoroso, mas em convidar o leitor a questionar a memória, a subjetividade e, sobretudo, o poder que um narrador tem ao contar uma história.
Publicada em 1899, a obra é construída como pseudoautobiografia de Bento Santiago, que recebe o apelido de Dom Casmurro dos vizinhos porque, segundo ele, “não gostam dos meus hábitos reclusos e calados”. Embora o adjetivo também designe alguém teimoso, obstinado e cabeçudo, o protagonista orienta o leitor a abandonar o significado do dicionário e aceitar apenas a interpretação que lhe convém. Esse pequeno detalhe já antecipa o tom enviesado que apresentará aos fatos.
A partir daí, Bentinho reconstrói a juventude marcada pelo grande conflito com a promessa da mãe, dona Glória, de torná-lo padre. Seu destino foi decidido antes mesmo de suas próprias escolhas, o que explica sua postura hesitante e dependente ao longo da trama. O próprio nome de batismo reforça essa ideia, pois remete ao abençoado, religioso e sacrificial.
Pois então, surge Capitolina, a Capitu, amiga de infância e grande paixão do narrador. Dona dos “olhos de ressaca”, a personagem carrega o título de centralidade e liderança, como a famosa colina da Roma Antiga, mas jamais recebe a oportunidade de contar sua própria versão da história. Tudo o que o leitor sabe sobre ela passa pelo olhar do protagonista: ora fascinante, ora suspeita, ora admirável, ora dissimulada.
O amor entre os dois parecia incompatível com o futuro religioso. Curiosamente, Bentinho sequer demonstra compreender de imediato a intensidade do próprio sentimento. É José Dias, o agregado da família, quem primeiro verbaliza aquilo que o jovem ainda não consegue enxergar, ao afirmar que Capitu tinha “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. E, então, os jovens amantes fazem de tudo para mudar o destino.
O cenário muda com a presença de Escobar, amigo de Bentinho desde o seminário. Inteligente, seguro de si e socialmente habilidoso, o personagem representa justamente tudo aquilo que falta ao protagonista. A amizade entre os dois parece sólida, mas, após o casamento de Bentinho com Capitu, coincidências passam a ser interpretadas pelo narrador como indícios de uma possível traição. O ápice ocorre com a morte de Escobar, quando ele enxerga nos “olhos de ressaca” da esposa uma emoção que confirmaria suas desconfianças.
Há um intervalo de décadas que separa os acontecimentos vividos por Bento da narrativa escrita por Dom Casmurro. Nesse espaço de tempo, a memória deixa de ser um registro fiel para tornar-se uma reconstrução inevitavelmente seletiva, assim como dizem estudos psicológicos de William James e Sigmund Freud. O próprio reconhece, em diferentes momentos, as limitações de suas recordações. Admite: “Como eu invejo os que não esqueceram a cor das primeiras calças que vestiram! Eu não atino com as das que enfiei ontem. Juro só que não eram amarelas porque exceto essa cor”. Ora, se não consegue reconstruir com precisão detalhes banais da própria vida, por que o leitor deveria se contentar com suas interpretações sobre acontecimentos muito mais complexos e carregados de emoção?
Bento tenta conquistar a simpatia do leitor ao frequentemente se apresentar como vítima das circunstâncias, desde alguém que precisa ser salvo da promessa feita pela mãe até o relacionamento fracassado pelo comportamento atrevido de Capitu. A imagem inicial é a de um homem sensato, digno de confiança, impressão que logo começa a ruir. Machado deixa escapar, nas entrelinhas, um protagonista excessivamente subjetivo, emocional e incapaz de lidar com as próprias inseguranças. Ainda adolescentes, Bentinho já dava sinais de uma obsessão com sua amada, o que só piorou ao longo dos anos.
Tal dependência cresce a ponto de fazê-lo cogitar a morte de Capitu, do filho Ezequiel e da própria. Não por acaso, Machado aproxima seu protagonista de Otelo, tragédia de William Shakespeare centrada no ciúme e na manipulação. A diferença é que, na peça, o espectador sabe a verdade e acompanha a influência de Iago sobre o protagonista. O autor poderia citar qualquer peça, mas nenhuma outra se encaixaria melhor nesse quebra-cabeças.
Ao terminar o romance, a sensação que fica é que Bentinho desperdiçou a própria vida perseguindo um pesadelo criado por si mesmo. Incapaz de superar o ciúme, ele termina sozinho, tentando encontrar, na escrita, uma existência que jamais conseguiu na realidade. E, assim, Machado desperta reflexões sobre até onde podem nos levar a obsessão, o ressentimento e a necessidade de encontrar culpados para as próprias tragédias.
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