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'A Cidade do Sol': quando a literatura retrata um passado que insiste em se repetir

Foto do escritor: Larissa Vidal
Larissa Vidal
há 2 horas
2 min de leitura

Publicado em 2007, o romance de Khaled Hosseini retrata a vida de mulheres afegãs em meio à guerra e à repressão; quase duas décadas depois, a obra permanece atual diante das restrições impostas pelo Talibã


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Foto: Unsplash

Há livros que nos emocionam por suas histórias. Outros nos fazem refletir sobre a sociedade em que vivemos. A Cidade do Sol, do escritor afegão Khaled Hosseini, consegue fazer as duas coisas.


A obra acompanha Mariam e Laila, duas mulheres de gerações e realidades diferentes que têm seus destinos cruzados em meio aos conflitos políticos e sociais do Afeganistão. Ao longo da narrativa, conhecemos suas dores, seus sonhos e a resistência que encontram para sobreviver em uma sociedade marcada pela desigualdade de gênero.


Embora seja uma obra de ficção, o romance é construído sobre acontecimentos históricos reais. Entre eles, o primeiro governo do Talibã, que controlou a maior parte do Afeganistão entre 1996 e 2001 e impôs severas restrições à liberdade das mulheres.


Quando a ficção encontra a realidade


Em 2001, após os atentados de 11 de setembro, os Estados Unidos lideraram uma intervenção militar no Afeganistão, que resultou na queda do governo talibã. Entretanto, o grupo não desapareceu e, vinte anos depois, em agosto de 2021, retomou o poder.


Desde então, as mulheres afegãs passaram a enfrentar uma retirada progressiva de direitos fundamentais. Meninas foram impedidas de frequentar o ensino secundário, mulheres perderam o acesso às universidades e grande parte das oportunidades de trabalho, além de sofrerem restrições à circulação e à participação na vida pública.


Em 2026, a situação se agravou ainda mais com novas disposições legais que, segundo a Anistia Internacional, facilitam o casamento infantil e dificultam o acesso das mulheres ao divórcio.


Os números também revelam essa realidade: segundo levantamento divulgado pela ONU Mulheres em agosto de 2026, mais da metade das afegãs entrevistadas afirmou sair de casa, no máximo, duas vezes por mês.


Uma leitura que ultrapassa as páginas


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O que torna A Cidade do Sol tão marcante não é apenas a representação da violência e da perda de direitos, mas a humanidade de suas protagonistas. Mariam e Laila não são somente personagens atravessadas pela guerra: são mulheres com desejos, afetos e sonhos que resistem mesmo diante das circunstâncias mais difíceis.


É justamente essa dimensão humana que torna a leitura tão necessária. A literatura nos permite enxergar além das manchetes e compreender como decisões políticas podem transformar profundamente a vida de pessoas comuns.


Quase vinte anos após sua publicação, A Cidade do Sol nos lembra que a conquista de direitos não significa sua permanência definitiva. O que hoje parece assegurado pode ser ameaçado quando a liberdade e a igualdade deixam de ser protegidas.


Mais do que uma indicação literária, esta é uma leitura para mulheres e homens que desejam compreender a importância da autonomia feminina e da defesa dos direitos humanos.


Porque conhecer a história também é uma forma de reconhecer os riscos de repeti-la.


Tenha consciência. Nossa luta é todos os dias.


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