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Saudades dos fantasmas? Giulia Cavalcanti, vencedora do Livros do Futuro, revela inspirações por trás de 'Espectros de um Crime'

  • Foto do escritor: Bianca Fávero
    Bianca Fávero
  • há 14 horas
  • 7 min de leitura

Obra resgata sensação nostálgica de ‘Ghost Whisperer’, ‘Supernatural’ e ‘Julie e os Fantasmas’; autora encontrará leitores na Bienal do Livro de São Paulo


giulia cavalcanti, autora de espectros de um crime
Foto: Reprodução/Instagram @giucavalcanti

Houve um tempo, lá pelos anos 2000, em que histórias de fantasmas estavam em alta. Séries como Ghost Whisperer e Supernatural transformavam o sobrenatural em parte da rotina, enquanto produções como Julie e os Fantasmas mostravam que nem todo espírito precisava ser assustador. Com o passar dos anos, porém, os fantasmas deram espaço a vampiros, anjos e lobisomens. Foi justamente dessa ausência que Giulia Cavalcanti encontrou a inspiração perfeita para escrever Espectros de um Crime


Vencedor da categoria suspense do Livros do Futuro, primeiro concurso promovido pelo TikTok para impulsionar artistas independentes, a obra acompanha Diana Aguilar, uma jovem capaz de ver e se comunicar com os mortos, habilidade que a auxilia em suas investigações criminais. 


Giulia começou os rascunhos da história em 2013 e, em 2018, já tinha os primeiros capítulos finalizados. Após anos guardando o projeto e passando por diferentes versões, a autora finalmente encontrou a oportunidade de levar a história ao grande público. 


Para conquistar os votos na competição, a brasileira também apostou no próprio carisma. Em um vídeo descontraído e criativo, ela apresentou a história com um bate-papo entre a criadora e a protagonista. A estratégia deu certo e, além de vencedor, Espectros de um Crime ganhou uma edição publicada pela HarperCollins. 


Mas a notícia não chegou de forma tão glamourosa quanto se poderia imaginar. Quando recebeu uma ligação sobre a conquista do concurso entre mais de 2.500 inscritos, Giulia achou que fosse spam ou uma cobrança. “Meu primeiro pensamento não foi vencer, foi: ‘corrompeu o arquivo, mandei pela metade, deu ruim’”, conta, aos risos, em entrevista exclusiva ao Capítulo Z. Foi só depois de receber um e-mail e uma nova ligação que ela finalmente acreditou que a história que havia guardado por tanto tempo chegaria às livrarias.


Agora, Giulia se prepara para encontrar os leitores pessoalmente durante a Bienal do Livro de São Paulo. A autora estará na programação do evento com bate-papos e sessões de autógrafos


Confira a entrevista com a autora na íntegra:


Capítulo Z: De onde surgiu a sua paixão pela literatura? Por que você escolheu ser escritora?

Giulia Cavalcanti: Eu escolhi ser escritora antes de entender o que era ser escritor. Minha mãe gostava de reunir toda família para contar histórias que ela inventava enquanto falava. Eu queria fazer a mesma coisa, queria conseguir criar esses mundos fantásticos. Só que quando eu tentei ainda era bem pequenininha e eu era péssima. Quando eu aprendi a escrever, encontrei um caminho para seguir os passos dela. 


Tenho a minha primeira tentativa de fantasia escrita ainda com aquela letra garranchinha de criança. Depois de alguns anos, comecei a compartilhar histórias na internet, pelo falecido fanfictions.net, depois para o Orkut, onde eu participava de uma comunidade chamada Nossos Romances Adolescentes. Então, fui para o Wattpad e fiz uma série de romance chamada Amores de Cinema, que fez sucesso e chamou a atenção de uma pequena editora independente. Foi a primeira experiência que eu tive de encostar num livrinho, mesmo que nunca tenha chegado às livrarias.


Capítulo Z: Antes de ter um livro publicado oficialmente por uma grande editora, como a Harper Collins, você era uma autora 100% independente. Quais foram suas dificuldades e aprendizados durante essa trajetória?

Giulia: É engraçado que a gente começa por hobby, é muito gostoso, mas eventualmente vira trabalho. E aí vem as dificuldades, porque você percebe que tem que fazer tudo de uma forma mais profissional. Não dá para só jogar o texto na internet. Acho que o principal desafio do autor independente é que ele faz tudo. Não é só escrever, é editar, pagar gente para revisar, para fazer a capa. Tem bastante custo que dificilmente volta. E, acho que o mais difícil, pelo menos para mim, é a divulgação. Não amo essa parte, porque você não vira só autor, mas produtor de conteúdo. A pressão é maior porque é só você.


Capítulo Z: Com a ascensão do BookTok, você sente que o fenômeno trouxe um espaço mais acolhedor para novos autores?

Giulia: O TikTok tem algo muito legal, que é diferente do Instagram. Ele não espera grandes produções. Só isso eu já acho um pouco mais acolhedor. Depois do concurso [Livros do Futuro], estou criando um pouco mais de conteúdo para a plataforma porque não sinto a pressão de ser aesthetic.


Sinto que a comunidade do BookTok é um grande clube do livro. Confesso que sou extremamente influenciável e, quando você vê os vídeos das pessoas falando sobre o livro, você fica com aquela sensação de ‘será que vou sentir a mesma coisa? será que vou ter a mesma opinião?’. E isso ajuda bastante novas histórias serem descobertas, porque gera a sementinha da curiosidade.


Capítulo Z: Qual você acha que foi o diferencial do seu livro ‘Espectros de um Crime’ para vencer o concurso Livros do Futuro do TikTok?

Giulia: Essa pergunta é difícil, eu devia ter perguntado isso para a editora [risos]. Confesso que achei que ganharia um suspense mais tradicional, denso e mais político. Talvez esse tenha sido o diferencial, pois ele é suspense, existem mortes, mas o livro não sangra. Ao mesmo tempo que tem muita morte, tem muita risada. A Camila, minha editora, até falou que foi um dos livros que mais fez ela rir nos últimos tempos. Ele também traz de volta a sensação muito milenar de quando assistimos Ghost Whisperer, Supernatural e Julie e os Fantasmas. Então, acho que ter esse apelo nostálgico pode ter ajudado. 


Capítulo Z: Como foi seu processo criativo em ‘Espectros de um Crime’? Quais foram suas principais inspirações?

Giulia: Eu sempre amei histórias de fantasma, mas acho que uma que fez a diferença é a série A Mediadora, da Meg Cabot. Não sei se recomendo, porque talvez ela não tenha envelhecido bem. Mas, essa série tem uma personagem muito forte, decidida, com aquele tom sarcástico de saco cheio do mundo que é muito divertido. 


Quando começaram a vir as ondas de vampiro, anjo e lobisomem, os fantasmas deram uma sumida, eu fiquei com saudades. Por isso, escrevi um A Mediadora se ela ficasse adulta e fosse trabalhar com a polícia. 


Capítulo Z: Você começou a escrever o livro em 2013. Houveram muitas mudanças com o processo de edição?

Giulia: Isso foi doloroso. Em 2018, eu tinha uns três capítulos iniciais, finalizei e revisitei eles uns anos depois para dar um tapinha. Eu tinha um vício muito grande em advérbios, além do meu Enemies to Lovers, que era só Lovers to Lovers. A personagem não fazia absolutamente nada, ficava sentadinha esperando que outras pessoas resolvessem o problema por ela. Até brinco com isso, porque enquanto você está escrevendo está tudo bem, mas quando começa a editar é tipo: “Por que tudo está desmoronando?”.


Capítulo Z: Você venceu um concurso com mais de 2.500 inscritos, qual a sensação de ver a história, que você guardou por tanto tempo, fazer sucesso?

Giulia: Já me arrepiei com a pergunta. Foi muito doido, meu marido está de prova. Eu não achava que era uma possibilidade vencer, não existia sementinha da esperança para vencer. Quando me ligaram achei que era spam ou cobrança, até que chegou um e-mail. Meu primeiro pensamento não foi vencer, foi “corrompeu o arquivo, mandei pela metade, deu ruim”. Nem esperei me ligarem de novo, até que a ligação chegou com os parabéns e eu fiquei questionando para ter certeza que era eu mesma. Acho que nunca tremi tanto na vida! Até hoje tenho aquela sensação do “não estou acreditando”. Eu estou vivendo um sonho, apesar de não processá-lo. 


Capítulo Z: Qual foi a sensação de ver a capa pela primeira vez? Você participou do processo criativo da produção?

Giulia: Sim, eu tive muita sorte ou conexão cerebral com a minha editora. Não sou muito boa em sugerir detalhes de capa, a única coisa que eu tinha como referência era o livro Cidade dos Fantasmas, da Victoria Schwab, que traz a sensação que eu queria de não ser super pesada nem muito leve para não enganar o leitor.  Na primeira reunião que tivemos sobre, minha editora descreveu exatamente o que estava na minha cabeça. Ver seu personagem saindo da sua cabeça e ficando em uma ilustração assim que vai ser vista por um monte de gente é uma experiência surreal. E eu ainda tive a experiência do poster da pré-venda, que me deu vontade de emoldurar.


Capítulo Z: Além do suspense, você já escreveu histórias de romance. Você tem uma paixão maior por um gênero?

Giulia: Acho que eu tenho fases. Meus romances têm um toque de suspense e vice-versa, sempre acabo interligando. Mas acho que me divirto um pouco mais no suspense, porque fico pensando: ‘será que vou enganar todo mundo?’. O leitor participa mais da história nessa de tentar adivinhar o que está acontecendo. Ao mesmo tempo, o suspense precisa de mais neurônios, então, escrevo um romance para dar uma suavizada. 


Capítulo Z: Quais os planos para o futuro? Você já tem algum spoiler de um próximo projeto?

Giulia: Estou tentando viver um dia de cada vez. Ainda tenho que ver como o livro vai performar para pensar no futuro. Tem coisas que eu gostaria muito que acontecessem, como vender mais exemplares e um dia escrever outro com a Harper. A história de Espectros de um Crime é única, mas dá brecha para fazer uma série de livros independentes. Por enquanto, meus planos são a curto prazo. 


Eu queria fazer algo para aumentar a participação do Greg, um personagem que todo mundo fica fã na história. Talvez seria o segundo ou terceiro livro da “saga”. Ele é o colega de casa da Diana e seria bem legal trazer um mistério para o passado dele ou fazer alguém da família dele estar passando por alguma situação que ela precise se envolver. 


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